Por que o São Paulo foi refundado em 1935?

A refundação do São Paulo, em 16 de dezembro de 1935, aconteceu porque o clube criado em 1930 havia deixado de existir no futebol. Em maio daquele ano, afundada em dívidas, a diretoria aprovou a fusão com o Clube de Regatas Tietê, extinguiu o departamento de futebol e entregou o patrimônio ao clube de regatas. Um grupo de sócios que não aceitou o fim do tricolor passou meses se reorganizando até recriar o São Paulo Futebol Clube, com o mesmo nome e as mesmas cores.

O episódio é um dos mais importantes da história são-paulina e explica por que, durante décadas, o próprio clube adotou 1935 como ano de fundação. A seguir, você confere como foi a crise, o que a fusão com o Tietê determinou, quem eram os dissidentes, como foi a reunião de 16 de dezembro e o que aconteceu nos primeiros anos do novo São Paulo.

Resumo rápido da refundação do São Paulo

  • Causa: dívidas e divergências internas levaram a diretoria a fundir o clube com o C.R. Tietê.
  • Fim do futebol: fusão aprovada em assembleia em 14 de maio de 1935, com o nascimento do Tietê-São Paulo.
  • Resistência: sócios foram à Justiça em abril e, depois da fusão, se organizaram no Grêmio Tricolor e no Clube Atlético São Paulo.
  • Refundação: 16 de dezembro de 1935, às 20h, em um escritório da Rua XI de Agosto, no centro.
  • Nomes-chave: o tenente José Porfírio da Paz presidiu a reunião, e Manoel do Carmo Mecca foi eleito presidente.
  • Estreia: 25 de janeiro de 1936, contra a Portuguesa Santista, no Estádio Antônio Alonso.
  • Virada: fusão com o Clube Atlético Estudante Paulista, em 1938, que deu estrutura e elenco ao novo clube.

A crise que levou ao fim do primeiro São Paulo

Em campo, o São Paulo da Floresta era um time vencedor. Fora dele, a situação era outra. Com a chegada do profissionalismo, em 1933, os salários pesaram, as dívidas cresceram e disputas internas dividiram a diretoria.

Parte dos dirigentes também estava descontente com os rumos do futebol no país. Para esse grupo, manter um time profissional deixou de fazer sentido. A saída escolhida foi juntar o São Paulo ao Clube de Regatas Tietê, vizinho da Chácara da Floresta, e encerrar as atividades do futebol.

A fusão com o Tietê e a batalha na Justiça

A decisão foi tomada sem consulta ao quadro social, e a reação veio rápido. Em 23 de abril de 1935, um grupo liderado por Paulo Sampaio entrou na Justiça para contestar o direito da diretoria de fundir o clube sem ouvir os sócios. Os associados ganharam a causa, e a diretoria foi obrigada a convocar uma assembleia geral.

A vitória, porém, durou pouco. O artigo 2º do estatuto limitava o direito a voto aos chamados sócios fundadores, cerca de 200 pessoas, e a maioria estava alinhada à diretoria. Na assembleia de 14 de maio de 1935, realizada sob chuva, segundo os relatos da época, a fusão foi aprovada.

O que a fusão determinou

Os termos foram duros para quem queria ver o São Paulo em campo. O departamento de futebol foi extinto e desfiliado da APEA, a entidade que organizava o campeonato. O Tietê incorporou o patrimônio físico, incluindo o estádio da Floresta, e assumiu a quitação das dívidas. O novo clube, chamado Tietê-São Paulo, ficou proibido de usar as cores, o uniforme e os símbolos do São Paulo.

Independente, Grêmio Tricolor e Clube Atlético São Paulo

Os jogadores também se opuseram à fusão e tentaram seguir juntos no Independente Esporte Clube. A experiência foi curta. Sem estrutura, o grupo foi assediado por outros clubes, os atletas se espalharam pelo futebol paulista e o Independente acabou extinto.

Entre os sócios, a mobilização foi mais duradoura. Os inconformados com a fusão criaram o Grêmio Tricolor, entidade com o objetivo declarado de refundar o clube e preservar suas glórias e tradições. Em 4 de junho de 1935, cerca de 235 antigos sócios fundaram o Clube Atlético São Paulo, passo seguinte na tentativa de recolocar o time em campo.

As fontes não são unânimes sobre a relação exata entre as duas entidades. Alguns registros atribuem a data de 4 de junho ao próprio Grêmio Tricolor, enquanto outros afirmam que o Grêmio deu origem ao Clube Atlético São Paulo nesse dia. Em qualquer versão, os dois grupos reuniam as mesmas pessoas e tinham o mesmo objetivo: trazer de volta o São Paulo Futebol Clube.

Outro grupo de dissidentes seguiu caminho diferente e fundou, também em maio de 1935, o Clube Atlético Estudante Paulista. Esse clube voltaria a cruzar a história tricolor poucos anos depois.

Como foi a reunião de 16 de dezembro de 1935

Depois de meses de articulação, os sócios se reuniram às 20h de 16 de dezembro de 1935 em uma sala do prédio 9-A da Rua XI de Agosto, no escritório do advogado Sílvio Freire. O endereço ficava onde hoje está a Praça da Sé, no centro de São Paulo. A ata registra que o tenente José Porfírio da Paz, diretor do Grêmio Tricolor, foi escolhido por unanimidade para presidir a assembleia, com Éolo Campos e Francisco Pereira Carneiro como secretários.

Naquela noite, o São Paulo Futebol Clube voltou a existir, com o nome e as cores de 1930. A primeira diretoria teve Manoel do Carmo Mecca como presidente e incluiu, entre outros, Alcides Borges, Francisco Pereira Carneiro, Éolo Campos, Luís Felipe de Paula Lima, Manoel de Arruda Nascimento e Isidoro Novaes. Porfírio da Paz assumiu a diretoria geral de esportes.

O papel de Porfírio da Paz

Tenente da Força Pública e farmacêutico, Porfírio da Paz foi o principal motor do novo clube. Percorreu emissoras de rádio para arrecadar dinheiro para contratações, usou recursos próprios e vendeu parte de seus bens para manter o São Paulo de pé. Também é o autor do hino do clube, composto em 1935 e oficializado em 1942. Décadas depois, chegou a vice-governador do estado de São Paulo.

Linha do tempo da refundação

DataAcontecimento
23/04/1935Sócios liderados por Paulo Sampaio contestam a fusão na Justiça
14/05/1935Assembleia aprova a fusão com o C.R. Tietê; futebol é extinto
Maio de 1935Dissidentes fundam o Clube Atlético Estudante Paulista
04/06/1935Cerca de 235 ex-sócios fundam o Clube Atlético São Paulo
16/12/1935Refundação do São Paulo Futebol Clube, na Rua XI de Agosto
24/01/1936Inauguração da sede na Praça Carlos Gomes, 38
25/01/1936Estreia oficial, contra a Portuguesa Santista
1938Fusão com o Clube Atlético Estudante Paulista

Os primeiros passos do novo São Paulo

O clube refundado começou praticamente do zero, sem estádio e sem dinheiro. O primeiro treino coletivo foi contra o Clube Atlético Paulista, no campo da Rua da Mooca, com vitória por 7 a 3. Em 24 de janeiro de 1936, foi inaugurada a sede na Praça Carlos Gomes, 38. No dia seguinte, data do aniversário da cidade, o time fez a estreia oficial contra a Portuguesa Santista, no Estádio Antônio Alonso. Porfírio da Paz chegou a alugar carros do próprio bolso para levar torcedores ao jogo.

O elenco era modesto, formado em boa parte por jogadores de origem humilde. Para o gol, o presidente Mecca e o técnico Armando Del Debbio foram buscar King em Curitiba, apontado como o primeiro goleiro negro de um clube paulista. Os resultados refletiram as limitações: o São Paulo terminou o Paulista de 1936 em 8º lugar e o de 1937 em 7º.

A fusão com o Estudante Paulista, em 1938

A virada veio em 1938. O Estudante Paulista, fundado por dissidentes do próprio São Paulo, fez uma excursão ao Chile e ao Peru e voltou quase falido depois que o empresário da viagem fugiu com a arrecadação. O São Paulo propôs a fusão. O Estudante tinha bons jogadores e era dono do Estádio Antônio Alonso, na Mooca. O tricolor tinha torcida e finanças equilibradas.

A disputa pelo nome foi resolvida a favor do São Paulo, pela tradição e pela identificação com a cidade e as cores. Com metade do elenco do Estudante, incluindo Roberto Gomes Pedrosa, o time ficou mais competitivo e foi vice-campeão paulista naquele mesmo ano. Era o início da trajetória que levaria o clube ao Pacaembu, aos títulos dos anos 1940 e, depois, ao Morumbi.

Refundação ou nova fundação?

Por muitos anos, o São Paulo tratou 16 de dezembro de 1935 como sua data de fundação. Isso deixava o período da Floresta, incluindo o título paulista de 1931, em uma espécie de limbo. A posição mudou quando o estatuto passou a reconhecer 25 de janeiro de 1930 como data oficial, e 1935 passou a ser tratado como o ano da refundação, ou reorganização, do clube.

A data de dezembro continua lembrada. Em 1985, nos 50 anos da refundação, um monumento foi erguido ao lado da Catedral da Sé, perto da rua onde aconteceu a reunião. Em 2015, nos 80 anos, o clube inaugurou outro monumento, desta vez no Morumbi.

Perguntas frequentes sobre a refundação do São Paulo

Quando aconteceu a refundação do São Paulo?

Em 16 de dezembro de 1935, em uma reunião de sócios realizada às 20h na Rua XI de Agosto, no centro de São Paulo. A fundação original do clube é de 25 de janeiro de 1930.

Por que o São Paulo deixou de existir em 1935?

Por causa de dívidas e divergências internas. A diretoria aprovou a fusão com o Clube de Regatas Tietê em 14 de maio de 1935, o que extinguiu o futebol e proibiu o novo clube de usar as cores e os símbolos do São Paulo.

Quem refundou o São Paulo?

Um grupo de ex-sócios reunido no Grêmio Tricolor e no Clube Atlético São Paulo. O tenente Porfírio da Paz presidiu a assembleia de refundação, e Manoel do Carmo Mecca foi eleito o primeiro presidente da nova fase.

Qual foi o primeiro jogo do São Paulo depois da refundação?

A estreia oficial foi em 25 de janeiro de 1936, contra a Portuguesa Santista, no Estádio Antônio Alonso. Antes disso, o time fez um treino coletivo contra o Clube Atlético Paulista e venceu por 7 a 3.

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