Por que o São Paulo é chamado de Clube da Fé?

O São Paulo é chamado de Clube da Fé porque renasceu, em dezembro de 1935, praticamente sem nada: sem estádio, sem dinheiro e sem os craques que tinha na fase anterior. Quem cunhou o apelido foi o jornalista Thomaz Mazzoni, um dos cronistas esportivos mais influentes da época, em 1937. Para ele, só a fé dos sócios e torcedores explicava a existência de um clube que havia sido extinto e voltado a campo do zero.

Quase 90 anos depois, o apelido segue entre os mais usados por torcedores e dirigentes. A seguir, você vê de onde ele veio, quem foi Mazzoni, por que a história do clube nos anos seguintes reforçou a ideia de fé e como o termo convive com outros apelidos do tricolor.

Resumo rápido do Clube da Fé

  • Apelido: Clube da Fé, um dos mais tradicionais do São Paulo Futebol Clube.
  • Criador: o jornalista Thomaz Mazzoni, cronista do jornal A Gazeta.
  • Quando: em 1937, cerca de um ano e meio depois da refundação.
  • Motivo: o clube havia renascido sem patrimônio, fama ou prestígio, sustentado apenas pela crença de seus sócios.
  • Contexto: fusão com o Clube de Regatas Tietê em maio de 1935 e refundação em 16 de dezembro do mesmo ano.
  • Símbolo da época: o tenente Porfírio da Paz, que gastou recursos próprios para manter o time e compôs o hino do clube.
  • Uso atual: o termo segue presente no discurso de torcedores e dirigentes.

De onde vem o apelido Clube da Fé

Para entender o apelido, é preciso voltar a 1935. O São Paulo fundado em 1930 vivia uma crise financeira e política, e a diretoria decidiu fundir o clube com o Clube de Regatas Tietê. A fusão, aprovada em 14 de maio daquele ano, extinguiu o futebol e passou o patrimônio, incluindo o estádio da Chácara da Floresta, ao clube de regatas.

Um grupo de sócios não aceitou o fim do clube e passou meses se reorganizando. Em 16 de dezembro de 1935, o São Paulo Futebol Clube foi refundado em uma sala de escritório na Rua XI de Agosto, no centro da cidade. Começava ali uma nova fase, mas em condições muito piores que as de 1930.

Foi olhando para esse recomeço que Thomaz Mazzoni batizou o São Paulo de Clube da Fé, em 1937. Na avaliação do jornalista, o tricolor tinha surgido sem patrimônio, sem fama e sem prestígio. Mazzoni escreveu que só a fé poderia fazer o clube “nascer como um clube varzeano qualquer” e, ainda assim, seguir adiante.

Quem foi Thomaz Mazzoni

Thomaz Mazzoni (1900-1970) foi um dos principais cronistas esportivos de São Paulo na primeira metade do século 20. Começou a atuar na imprensa da cidade por volta de 1920 e se dedicou sobretudo ao futebol, com textos publicados no jornal A Gazeta.

Além das crônicas, publicou livros como “O Brasil na Taça do Mundo”, de 1938, e “Problemas e aspectos do nosso futebol”, de 1939, ambos reunindo textos do jornal. Pesquisadores que estudam sua obra destacam que ele buscava atribuir uma função social ao esporte. Com esse peso na imprensa, um apelido criado por Mazzoni tinha boa chance de pegar, e foi o que aconteceu.

Um clube que recomeçou do zero

O cenário que inspirou Mazzoni era de escassez. O clube refundado não tinha estádio, e a primeira sede, na Praça Carlos Gomes, só foi inaugurada em 24 de janeiro de 1936. A estreia oficial veio no dia seguinte, contra a Portuguesa Santista, no Estádio Antônio Alonso, campo que não pertencia ao São Paulo.

O elenco era formado em boa parte por jogadores de origem humilde, e os resultados mostravam as limitações. O São Paulo terminou o Campeonato Paulista de 1936 em 8º lugar e o de 1937 em 7º. Bem diferente do time da Floresta, que havia sido campeão paulista em 1931 e vice em quatro temporadas.

Porfírio da Paz, o rosto da fé tricolor

Se alguém personificou o espírito do apelido, foi o tenente José Porfírio da Paz. Ele presidiu a assembleia de refundação e assumiu a diretoria geral de esportes. Para montar o time, percorreu emissoras de rádio pedindo dinheiro, gastou recursos próprios e vendeu parte de seus bens. Na estreia de 1936, chegou a alugar carros do próprio bolso para levar torcedores ao estádio.

Porfírio também é o autor do hino do São Paulo, composto em 1935 e oficializado em 1942. Em 1966, ele doou ao clube os direitos autorais da obra. Mais tarde, chegou a vice-governador do estado.

Da fé ao Mais Querido: a virada dos anos 1940

A aposta dos sócios começou a dar resultado no fim da década de 1930. Em 1938, o São Paulo se fundiu com o Clube Atlético Estudante Paulista, ganhou jogadores e estrutura e foi vice-campeão paulista naquele mesmo ano.

Em 27 de abril de 1940, na inauguração do Pacaembu, a entrada do São Paulo em campo foi muito aplaudida pelo público. Pouco depois, uma votação popular promovida pelo DEIP, órgão de imprensa e propaganda do governo, deu ao clube 5.523 votos, contra 2.671 do Corinthians e 2.593 do Palestra Itália. O resultado consolidou outro apelido, o de Mais Querido.

Em campo, a virada veio com a chegada de Leônidas da Silva, em 1942, e uma sequência de títulos paulistas: 1943, 1945, 1946, 1948 e 1949. O time daquela década ficou conhecido como Rolo Compressor. Em menos de dez anos, o clube que Mazzoni descrevera como varzeano tinha virado a maior força do estado.

O Morumbi e a fé que virou concreto

Outro capítulo da história tricolor costuma ser lembrado quando se fala em fé: a construção do Morumbi. O estádio foi erguido sem dinheiro público. Para viabilizar a obra, o clube vendeu o Canindé, seu único patrimônio na época, quitou dívidas para conseguir empréstimos e criou uma comissão própria, liderada por Cícero Pompeu de Toledo, que hoje dá nome ao estádio.

O dinheiro veio de várias fontes: venda de títulos patrimoniais e sociais, parcerias, permutas, empréstimos e até um sorteio, o Carnê Paulistão. O goleiro José Poy se envolveu pessoalmente na venda de ingressos antecipados. As obras começaram em 1953, o estádio foi aberto parcialmente em 2 de outubro de 1960, com vitória por 1 a 0 sobre o Sporting, e inaugurado de forma definitiva em 25 de janeiro de 1970, no empate por 1 a 1 com o Porto.

Clube da Fé e outros apelidos do São Paulo

O Clube da Fé divide espaço com outros nomes pelos quais o São Paulo é conhecido. Alguns nasceram em momentos específicos da história do clube, como mostra a tabela abaixo.

ApelidoOrigem
TricolorAs três cores do clube, branco, vermelho e preto, adotadas desde 1930
Clube da FéCriado por Thomaz Mazzoni em 1937, após a refundação de 1935
Mais QueridoAplausos na inauguração do Pacaembu e votação do DEIP, em 1940
Rolo CompressorTime dominante do Campeonato Paulista nos anos 1940

O apelido criado por Mazzoni continua vivo. Em 2022, durante a polêmica sobre o termo “Trikas”, popularizado nas redes sociais, o então diretor de futebol Carlos Belmonte disse preferir “Tricolor” e afirmou que o nome com o qual mais se identificava era Clube da Fé, justamente por ser o mais antigo.

Perguntas frequentes sobre o Clube da Fé

Quem criou o apelido Clube da Fé?

O jornalista Thomaz Mazzoni, cronista do jornal A Gazeta e um dos nomes mais influentes da imprensa esportiva paulista na época. Ele usou a expressão em 1937.

Por que o São Paulo é chamado de Clube da Fé?

Porque o clube foi extinto no futebol em maio de 1935, após a fusão com o Tietê, e refundado em dezembro do mesmo ano sem estádio, sem dinheiro e sem craques. Para Mazzoni, só a fé dos sócios explicava esse renascimento.

O apelido Clube da Fé tem relação com religião?

Não diretamente. O termo se refere à crença e à persistência dos sócios e torcedores que recriaram o clube em 1935, e não a uma religião. O nome São Paulo homenageia a cidade, fundada em 25 de janeiro, data também escolhida para a fundação do clube em 1930.

O hino do São Paulo fala em fé?

Não. O hino oficial, composto por Porfírio da Paz em 1935, exalta as glórias e as cores do tricolor, mas a palavra fé não aparece na letra. O apelido nasceu na imprensa, não no hino.

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